sexta-feira, junho 30, 2006

 

A POLÍTICA CULTURAL DA CÂMARA MUNICIPAL

O maestro Luís Manuel foi corrido da Orquestra de Harmónicas.
Numa reunião havida com os membros da orquestra de harmónicas de Ponte de Sor e o presidente da Câmara Municipal de Ponte de Sor Taveira Pinto, este expôs aos primeiros que estava uma proposta de deslocação à Ilha de Malta, à qual, a Câmara Municipal de Ponte de Sor apoiaria se o maestro não fosse... Se o Luís Manuel fosse, "não havia dinheiro para ninguém".
O Presidente da Câmara Municipal de Ponte de Sor, Taveira Pinto usou ainda expressões tais como "o sr. enquanto músico é muito bom, mas como pessoa, não vale nada"...
O caso foi posto à votação com o visado presente.
Resultado: Taveira Pinto ganhou com larga maioria e Luís Manuel sai da Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sor.

http://www.pontedosor.blogspot.com/

 

Portugal deve apoiar luso-descendentes

Os Descobrimentos são indiscutivelmente o período mais alto da história de Portugal, em que ao poderio económico se aliava a influência política, mas em que havia sobretudo uma diáspora da cultura e identidade portuguesa.

Enganam-se – porém – os que pensam que este movimento de expansão parou no século XVI. Em pleno século XX, aconteceu uma 2.ª diáspora, com traços profundamente diferentes, marcada sobretudo por dificuldades económicas e inseguranças políticas, mas com idêntico resultado: difundiu-se ainda mais a presença portuguesa – a nossa língua, os nossos hábitos, a nossa cultura.

A 10 de Junho, Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas, é tempo de – para além de homenagearmos o maior expoente da literatura lusa – virarmos as atenções para os nossos “irmãos” espalhados pelos quatros cantos do Mundo.

Mas que este não seja um olhar furtivo e desinteressado. É altura de fortalecermos os laços que nos unem: laços que aqueles que se encontram fora de Portugal querem manter e que nós, portugueses em Portugal, nos esquecemos de cultivar.

A Juventude Social Democrata, reconhecendo a falta de apoio a que muitas vezes são votadas as comunidades lusas, defende os seguintes princípios:

A nível de ensino

– é imperativo solidificar e alargar a rede de escolas de língua e cultura portuguesa em todo o Mundo;

– é necessário facilitar a mobilidade de estudantes luso-descendentes para Portugal, nomeadamente criando processos mais ágeis de reconhecimento e acreditação de “curricula” estrangeiros;

– criar uma bolsa de estágios não só dentro da lusofonia, mas também em empresas portuguesas ou de luso-descendentes em países de língua não portuguesa.

A nível cultural

– é fundamental apoiar a difusão dos produtos culturais portugueses, da literatura à música, passando pela gastronomia e pela moda;

– é importante a criação e o desenvolvimento de espaços que difundam a tradição e a cultura portuguesas.


Não se pode ignorar por mais tempo a realidade que é a lusofonia. Temos de abandonar a ideia de que perpetuar uma Comunidade Portuguesa no Mundo é manter ligações do passado. Pelo contrário, a lusofonia é uma entidade dinâmica, com futuro e que pode desenvolver um papel fundamental na divulgação e promoção do nosso país.

Além disso, temos finalmente de perceber que ajudar a fortalecer a presença da identidade portuguesa tem uma dupla função: por um lado, permitimos aos jovens luso-descendentes conhecer melhor a cultura que todos partilhamos; por outro, permitimos às comunidades em que se inserem conhecer melhor a identidade das pessoas que acolheram.

Reconhecendo tudo isto, a JSD decidiu criar, dentro do Gabinete de Relações Internacionais, um grupo de trabalho que se vai debruçar exclusivamente sobre a lusofonia.

É hora de darmos a mão a quem tão fervorosamente quer abraçar a nossa cultura e tão entusiasticamente recebe qualquer “bocadinho de Portugal”. (O último exemplo, bastante claro, foi o acolhimento que a Selecção Portuguesa de Futebol teve na Alemanha.)

É altura de deixarmos de encarar a presença de portugueses pelo Mundo como uma consequência histórica. A luso-descendência é uma identidade em si mesma.

Juventude Social Democrata

Ana Filipa Janine

(Directora do Gabinete de Relações Internacionais)

 

OBVIAMENTE, DEMITO-O!

(Ou há moralidade ou comem todos)

Para que não seja mal interpretado, quero declarar, desde já, que subscrevo, em absoluto, as posições defendidas por Medina Ferreira, relativamente às reformas que deverão ser implementadas.

Agora também é certo que a dureza das reformas exige que se tenha absoluta confiança em quem as vai implementar.

Ora, aqui é que está o fulcro da questão. Por um lado, tendo o primeiro-ministro mentido tantas vezes, já ninguém acredita em nada do que ele diz. (Ainda a este propósito recordem-se as declarações de José Sócrates a seguir ao jogo de Portugal – Angola. «Um grande jogo e uma grande exibição», quando toda a gente viu que, quer o jogo, quer a exibição de Portugal, foram muito pobres. E disse isso com a mesma cara com que anuncia a recuperação económica e as grandes medidas do Governo, o que significa que qualquer português minimamente inteligente não pode deixar de concluir que, tanto uma como as outras, devem estar ao mesmo nível da exibição de Portugal). Por outro lado, encontrando-se o parlamento e o governo, completamente atulhados dos políticos responsáveis pelo estado a que isto chegou, ninguém já lhes reconhece competência, nem autoridade moral, para levar a cabo o que quer que seja. Ou será que os antigos ministros e deputados de António Guterres pensam que é adoptando agora poses ditatoriais que recuperam a sua autoridade moral aos olhos do povo? Ou que é culpando toda a gente (juízes, advogados, professores, funcionários públicos, agricultores, farmacêuticos, etc) que conseguem sacudir a água do capote?

A primeira grande reforma tem de ser moral: os políticos responsáveis pelo afundamento do país têm de assumir as suas responsabilidades. É por aqui que se tem de começar.

Além disso, para se ter legitimidade democrática para governar, não basta ganhar as eleições. É necessário dar cumprimento às medidas anunciadas no seu programa eleitoral e que justificaram o voto dos portugueses.

Com efeito, se um candidato a primeiro-ministro garante que, se ganhar as eleições, não vai aumentar os impostos, pode-se compreender que, dois anos ou três após ter sido eleito, devido a circunstâncias supervenientes, o Governo acabe por ter de aumentar os impostos. Mas já é totalmente inaceitável que, mal tome posse, a primeira medida que tome seja precisamente aumentar os impostos. Isto é uma autêntica burla. É o conto do vigário.

Ora, num caso destes, o Presidente da República, como mais alto magistrado da Nação, devia devolver imediatamente os votos aos portugueses que foram burlados, em defesa do princípio de que o crime não compensa.

Ainda recentemente, um socialista justificava-me o facto de José Sócrates ter tido necessidade de mentir descaradamente aos portugueses com o argumento de que, tendo em conta a situação do país, se tivesse falado verdade, teria perdido as eleições.

Ora, se achamos que o povo é burro, a única solução é acabar com esta palhaçada das eleições. Agora o que não me parece correcto é reduzir-se a democracia a uma eleição do melhor contador do conto do vigário. Até porque, como diz o povo, ou há moralidade ou comem todos. Na verdade, se é legítima a mentira para se conseguir o lugar de primeiro-ministro, por que razão o cidadão comum tem de falar verdade nas suas declarações ao fisco, no tribunal ou para conseguir um emprego? Sempre ouvi dizer que o exemplo vem de cima. Então, é por cima que se deve começar.

Por isso, quando o senhor Presidente da República, no seu discurso do 10 de Junho, resolveu perguntar aos portugueses, parafraseando John Kennedy, o que é que cada um de nós podia fazer pelo seu país, devia também ter feito essa pergunta a si próprio. E se a fizesse, a resposta só podia ter sido a de Humberto Delgado a propósito do primeiro-ministro da altura: «Obviamente, demito-o!»


Santana-Maia Leonardo, in Primeira Linha

sexta-feira, junho 23, 2006

 

O CHEFE SOU EU

(O futebol é o espelho de um país)

O futebol é, de facto, o espelho de um país. Não é, por isso, de estranhar nem as escolhas do seleccionador, nem a conduta do treinador. Num país onde os empregos se ganham mais por cunhas e amizades do que por mérito por que razão o critério das escolhas do nosso seleccionador para o Mundial havia de ser diferente? E se a maioria dos chefes e presidentes que pululam por esse país fora são arrogantes, autoritários e estão habituados a justificar as suas duvidosas escolhas com o argumento irrefutável de «O chefe sou eu», por que razão o nosso seleccionador havia de ser diferente? E se a maioria dos portugueses é invejosa e mesquinha, congratulando-se mais com o mal alheio do que com o bem próprio, por que razão se havia de indignar com o facto de a selecção ser usada descaradamente para afrontar o campeão nacional e a equipa europeia que nos últimos vinte anos mais títulos conquistou?

É, por estas e por outras, que o nosso país está condenado a morrer afogado nos seus odiozinhos de estimação e nas suas pequenas invejas.

A Itália é olhada, por quase toda a gente, com desconfiança, por estar conotada com esquemas mafiosos, escândalos e corrupção. No entanto, quando há alguns anos rebentou o célebre escândalo das apostas, o Milão desceu de divisão. E, neste momento, arrisca-se a suceder o mesmo à Juventus.

Ora, isto é impossível de suceder em Portugal. Neste país, as leis fizeram-se para ser aplicadas aos Gondomar, Farenses e Académicos de Viseu… Os grandes (sejam do futebol ou não), façam o que fizerem, estão sempre acima da lei. E ai de quem não perceber isto.

O futebol português reflecte tão bem o que se passa no resto do país que até os castigos são administrados no único e exclusivo interesse dos infractores. Os cartões amarelos, por exemplo, em vez de servirem para punir os infractores, são usados por estes a seu bel-prazer, segundo as conveniências dos clubes que servem. Até ao quarto cartão, é distribuir “fruta” com fartura, enquanto o quinto é pedido na véspera de um jogo de fraco interesse competitivo, com vista a limpar todos os cartões amarelos acumulados até aí. É, por isso, que, no nosso futebol e no resto, as nossas leis, elaboradas com tanto esmero e carinho, acabam quase sempre por servir precisamente fins opostos àqueles que pretendiam acautelar.

E, para o comum dos portugueses, o que é o “fair play”? É o jogo franco, leal, limpo? Mas tu és parvo ou quê? “Fair play” é a equipa adversária atirar a bola para fora quando o nosso jogador está estendido no chão a simular uma lesão com o único intuito de queimar o máximo de tempo de jogo possível. É a isto que, em Portugal, se chama “fair play”.

O nosso problema, como o nosso futebol claramente o demonstra, não é, pois, uma questão de leis, mas uma questão cultural. É por esta razão que todas as reformas têm fracassado, na medida em que centram os seus esforços na alteração das leis, quando o problema tem a ver com as atitudes e comportamentos. Na administração pública, por exemplo, a única reforma capaz de produzir efeitos positivos e eficazes é ou a privatização de serviços, como aconteceu com os notários, ou a substituição dos velhos funcionários dos tempos da máquina de escrever por funcionários novos familiarizados com as novas tecnologias e com uma nova visão do mundo.

É, por esta óbvia razão, que vejo com grande apreensão a maioria das medidas propostas pelo Governo para desburocratizar a administração pública (o tal Simplex), uma vez que reflectem o total desconhecimento da nossa realidade. Muitas dessas medidas, aliás, destinam-se apenas a facilitar ainda mais a vida a vigaristas e aldrabões.

Por outro lado, a reforma da segurança social apresentada pelo Governo com o prolongamento da vida activa dos funcionários públicos até e para além dos 65 anos é incompatível, pelas razões acima expostas, com a indispensável reforma do Estado e da administração pública. A não ser que o Governo se prepare para lançar no desemprego os velhos funcionários públicos, depois de os ter impedido de se reformarem.


Santana-Maia Leonardo, in Primeira Linha

terça-feira, junho 20, 2006

 

OS MAUS E OS BONS DA FITA

(Os maus são obviamente os professores)

Na sua cruzada contra os professores, chegou agora a vez da ministra da Educação exibir como exemplo a seguir a classe profissional dos médicos, na medida em que, ao contrário dos professores, dão prioridade aos doentes que estão em perigo de vida.

Ora, ao contrário do apregoado pela ministra, há mais de vinte anos que os professores não se preocupam com outra coisa a não ser com os alunos com mais dificuldades. E se os médicos conseguem prolongar a vida, artificialmente, a muitos doentes que, em condições normais, já teriam morrido, os professores, nesse aspecto, também têm conseguido prolongar, artificialmente, o grau de escolaridade de muitos jovens (alguns até à universidade) que, em condições normais, nunca teriam passado sequer da 4ª classe.

É certo que, mesmo assim, ainda há muitos que morrem pelo caminho. Mas isso também ainda sucede com muitos doentes. Com efeito, por muita dedicação que tenha o médico, isso ainda não é suficiente para impedir que continuem a morrer pessoas em Portugal (se estiver errado, agradecia que me corrigisse, senhora ministra).

Quanto ao facto de o insucesso e o abandono escolar serem superiores à mortalidade nos nossos hospitais, o único culpado por que isso sucede é o Ministério da Educação que não permite que os professores utilizem, nas suas aulas, os mesmos métodos que os médicos utilizam nos hospitais para tratarem os doentes que se recusam a tomar a medicação, que querem arrancar os tubos que têm ligados ao corpo ou que se querem suicidar. Se os professores também pudessem chamar dois enfermeiros para agarrarem os alunos que perturbam as aulas, amarrá-los à carteira e amordaçá-los, não só o abandono escolar como também o insucesso escolar desceriam em flecha.

O problema é que os professores estão impossibilitados, na maioria das turmas, de dar uma aula com um mínimo de seguimento e coerência porque há sempre, mesmo nas melhores turmas (nas piores é a turma inteira), dois ou três alunos insolentes, que se comprazem em perturbar o bom funcionamento da aula. E, nestes casos, as escolas funcionam ao contrário dos hospitais. Com efeito, quando os alunos se comportam mal, quem fica de mãos e pés atados são os professores e não os alunos.

É, por isso, intelectualmente desonesto acusar os professores pelo insucesso escolar quando é o próprio Ministério que lhes cria as condições objectivas para que não consigam o sucesso. E só por cinismo se pode dar como exemplo o ensino privado quando se sabe perfeitamente que o sucesso alcançado nas escolas privadas é fruto da eliminação pura e simples de todo e qualquer aluno que se comporte mal ou que perturbe as aulas.

É, pois, absolutamente natural que, no ensino público, os professores mais velhos e com mais anos de serviço (o que não significa, obviamente, que sejam os melhores) fiquem com as turmas mais sossegadas e os professores mais novos com as turmas mais difíceis. E é assim que deve ser, por uma razão bem fácil de perceber: as turmas mais indisciplinadas não necessitam de um professor que tenha muitos conhecimentos, mas de um ranger, ou seja, de indivíduos com grande resistência física e psicológica, para aguentarem, no mínimo, durante noventa minutos muito ruído, muitos desaforos, muitas ofensas e muitos comportamentos insolentes. Para dar aulas a certas turmas, os professores não necessitam de ter grandes conhecimentos, basta que tenham resistência física e psicológica e formação militar.

Se colocassem à frente destas turmas uma professora do género da senhora ministra da Educação, essa professora dificilmente conseguiria terminar o ano sem entrar em depressão, a não ser que faltasse sistematicamente a essas aulas para tentar preservar a sua saúde física e mental.

E a senhora ministra da Educação sabe isto perfeitamente, pelo que, ao querer forçar os conselhos directivos a distribuírem as piores turmas aos professores mais velhos, só pode ter um objectivo: expulsar do ensino os professores mais velhos (que já não têm estrutura física e psicológica para aguentar a indisciplina de certas turmas), promovendo, dessa forma enviesada, a renovação da classe docente que o aumento da idade da reforma veio dificultar.

Deviam, de resto, ser colocadas câmaras ocultas em todas as salas de aulas para que o país pudesse compreender não só a razão por que os professores não podem ter mais horas lectivas, sob pena de arruinarem definitivamente a sua saúde física e mental, como também que os professores, afinal, são as principais vítimas de um sistema criado para gerar iniquidade.


Santana-Maia Leonardo, in Primeira Linha

segunda-feira, junho 12, 2006

 

Neo-Falcon

Ontem, um bom amigo queixava-se da imprensa:


"Vê bem o que esse pasquim inventou só para criticar o governo, que o Sócrates arranjou uma reunião em paris só para poder ir de Falcon ver a selecção"
Se a coisa fosse há 18 meses atrás, dir-me-ia:

"Inacreditável, este gajo, o Santana, foi de Falcon ver o jogo e só para disfarçar, arranjou uma reunião em Paris"

http://www.ablasfemia.blogspot.com/

 

OS BONS E OS MAUS PROFESSORES

Foi com alguma surpresa que li o editorial de José Manuel Fernandes no jornal «Público» do passado domingo em que manifestava todo o seu entusiasmo pela recente proposta do Ministério da Educação sobre a avaliação dos professores. Em primeiro lugar, o simples facto de, nos últimos trinta anos, todas as reformas levadas a cabo pelo Ministério da Educação terem redundado num autêntico fracasso (quase sempre na razão inversa do melhoramento que prometiam), deveria ser suficiente para que qualquer pessoa sensata tivesse alguma reserva em relação a qualquer proposta deste Ministério. Em segundo lugar, bastava conhecer o pensamento sobre a Educação do senhor secretário de Estado Dr. Valter Lemos para ficar, desde logo, altamente apreensivo sobre a viabilidade de qualquer boa ideia poder sair daquele Ministério. Finalmente, bastaria ao senhor director fazer uma pequena reflexão sobre os seus argumentos para verificar que eles apontavam precisamente no sentido contrário ao da medida proposta.

Diz o senhor director que todos nós «tivemos professores que nos marcaram», uns no sentido positivo, outros no sentido negativo. É uma verdade insofismável. Só que a avaliação que fazemos dos nossos professores quando temos 50 anos, não é seguramente a mesma que fizemos quando tínhamos 15 anos. Foi, por essa razão, que a geração do senhor director, quando teve a oportunidade de, após o 25 de Abril, avaliar os seus professores, saneou os bons (que agora são recordados com tanto carinho) e promoveu a sua substituição por professores medíocres e sem quaisquer habilitações.

Por outro lado, a avaliação que um bom aluno faz do professor não é a mesma que faz um aluno médio ou um mau aluno, sendo certo que, à excepção dos bons (a minoria), todos os outros, regra geral, se acham injustiçados e perseguidos. E para os pais, esta situação ainda é mais empolada na medida em que, por um lado, são incapazes de reconhecer as limitações e as insuficiências dos seus filhos e, por outro, querem garantir-lhes a todo o custo boas classificações, mesmo que não sejam merecidas, porque têm a consciência de que disso vai depender a sua vida.

É também verdade que a esmagadora maioria dos pais não tem conhecimentos para avaliar os professores. Mas o grande obstáculo a que essa avaliação possa ser credível, não é tanto a falta de conhecimentos dos pais, mas o simples facto de serem pais, o que lhes tolda completamente o espírito quando se trata de proceder à avaliação do seu filho. E avaliar o professor do filho é, no fundo, avaliar o próprio filho.

A melhor prova disso são os pais-professores que, apesar de serem professores, são totalmente incapazes de uma análise objectiva e fria do comportamento e do aproveitamento dos seus filhos. Esta é, provavelmente, a razão por que ninguém de bom senso defende que os juizes sejam avaliados pelos pais dos arguidos ou que os polícias sejam avaliados pelos pais dos autuados. E é também este o principal motivo por que a participação dos pais na escola se tem revelado bastante nefasta. Com efeito, os pais, mesmo quando representam os pais em abstracto, apenas se preocupam com o seu filho em concreto. As suas intervenções, seja nos conselhos de turma, seja nos diferentes órgãos da escola, tem sempre como pano de fundo o seu filho e os seus problemas. E de uma forma quase doentia.

Também não é verdade que «o sistema de ensino olhe, primeiro, para os professores, depois para os interesses dos professores e depois para o bem-estar dos professores». O sistema de ensino tem olhado sempre, em primeiro lugar e exclusivamente, para os interesses dos pais, dos sindicalistas e dos políticos que têm sido sempre coincidentes: mais tempo na escola, mais disciplinas, menos desemprego, mais tachos. Os interesses dos professores, no verdadeiro sentido da palavra, nunca foram tidos em conta.

Quanto às autarquias, era bom estarmos conscientes de que existe 1 Lisboa e 319 Marcos de Canavezes. Quem vive no anonimato da capital esquece-se completamente das perseguições (no sentido literal do termo) que os munícipes que não vêm “comer à mão” dos autarcas sofrem por esse país fora.

Finalmente, termino recordando uma acção de formação em que participei e que hoje reconheço ter sido muito útil. Sobretudo naquela parte em que, para me apresentar, tive de atirar uma bola de ténis aos meus colegas. Pretendia o formador que eu utilizasse esta estratégia de apresentação com os meus alunos do 12º ano. Na altura, fiz um esforço enorme para não morrer de ridículo. Hoje, no entanto, reconheço quão benéfica foi aquela acção, na medida em que me preparou, psicologicamente, para dar cumprimento às medidas propostas pelo Ministério da Educação.



Santana-Maia Leonardo, in Primeira Linha

domingo, junho 04, 2006

 

BOCAGE, MEU IRMÃO

No próximo domingo, dia 4 de Junho, às 15H30, vou apresentar, na Feira do Livro de Lisboa, o meu novo livro «Bocage, Meu Irmão». Trata-se de um livro de poesia satírica que pretende homenagear, no preciso momento em que se celebra o II centenário da sua morte, o Bocage inapagável das anedotas e da poesia satírica que se imortalizou no imaginário do povo português. E o tempo em que vivemos presta-se de sobremaneira à sátira. Como dizia Charlie Chaplin, «a vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe». E «Bocage, Meu Irmão» é o retrato fiel e, consequentemente, politicamente incorrecto de um país que dá vontade de rir, começando no primeiro-ministro e acabando em cada um de nós.

A concepção deste livro surgiu por acaso. Com efeito, tendo colocado a hipótese de a minha aversão aos surrealistas se basear no facto de não conhecer suficientemente a sua obra, decidi passar a primavera e o verão do ano passado a ler poesia surrealista, não só dos autores mais conhecidos mas também daqueles de quem nunca tinha ouvido falar. Para isso, abasteci-me de uma quantidade industrial de livros de diferentes autores (portugueses e estrangeiros) e de antologias. Durante mais de três meses, devorei dezenas de autores. Quando terminei a leitura, provavelmente influenciado pelo que li, só me ocorria à mente a única imagem que me ficou da primeira vez que a minha mãe me levou ao Jardim Zoológico de Lisboa: um gorila que fazia as delícias dos espectadores defecando na mão e atirando as fezes para cima destes, para seu grande gáudio e meu. E surgiu,assim, o soneto «Surrealista».

Por sua vez, ao escrever este soneto, lembrei-me do eterno Bocage, que conheci em Setúbal quando ainda não andava sequer na escola primária. «Bocage», disse-me o meu pai, «agarrou-se a uma argola daquelas em que se prendem os cavalos, começou a puxar e a dizer em voz alta: “Há-de sair! Há-de sair!”. As pessoas, vendo aquele enorme esforço, começaram-se a juntar para ver se Bocage conseguia arrancar a referida argola. Nisto Bocage dá um sonoroso traque e exclama aliviado: “Já saiu”». Para o meu pai, tudo o que metesse um traque era um fartote de rir. A partir daí, nunca mais pararam as anedotas de Bocage que passou a ser o meu herói.

Mesmo quando me mudei para Ponte de Sor, com nove anos de idade, após a morte do meu pai, o Bocage continuava a ser o herói de quase todas as anedotas. Até a minha avó, pessoa conservadora e extremamente educada, se ria com as anedotas do Bocage. Ainda recordo a primeira que me contou: «Bocage estava cheio de vontade de fazer as suas necessidades e não encontrou melhor lugar do que junto a uma casa de habitação. A dona da casa, que usava um toucado (como era moda do tempo), ao vê-lo a fazer as necessidades por baixo da sua janela, despejou-lhe um balde de água em cima, tendo Bocage reagido desta forma: “Ó senhora do toucado/ Já que tem a mão tão certa/ Venha buscar a oferta/ que ficou do baptizado.”»

No Colégio La Salle, aqui em Abrantes, Bocage continuava a ser o ídolo da juventude. Até que, no 7ºano (actual 11º), o meu professor de Português decidiu destruir esta imagem mítica do Bocage das anedotas, dando-nos a conhecer um poeta sem graça nenhuma, angustiado, carcomido pelos remorsos e que desejava morrer a toda a hora. Enfim, um chato (o professor e o Bocage).

Ora, no ano em que se celebrava o IIº centenário da sua morte, achei que devia ao Bocage da minha infância e que o meu professor de Português matou dentro de mim, a obrigação de ressuscitá-lo. Até porque o tempo que agora vivemos se presta a isso.

O actual Governo, confesso, foi uma grande fonte de inspiração, assim como o enlevo com que as suas medidas idiotas são recebidas, em regra, pelos nossos jornalistas, sempre prontos a descortinarem um halo de coragem onde só há arrogância, incompetência e propaganda.

Em homenagem ao Bocage, o livro é composto por sonetos (versos decassilábicos heróicos e rima consoante, salvo raras excepções) e cartoons de Bocage da autoria de Carlos Barradas. Por isso, já sabe, se tiver a oportunidade de ir à Feira do Livro de Lisboa, no próximo dia 4 de Junho, aqui lhe deixo uma sugestão para matar saudades do Bocage que conhecemos fora da escola.



Santana-Maia Leonardo, in Primeira Linha

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